Olá, chapas. Bom, aqui não vou escrever um conto muito longo não. Hoje pretendo ser breve, é mais um relato de algo que achei interessante do que um conto. Não, não vou chamar de conto, NÃO É UM CONTO! É só um texto e uma... divagação.
Na madrugada de ontem, enquanto trabalhava, uma moça da equipe de limpeza apareceu pra fazer o seu trabalho. Ela limpava todas as fileiras da mesa do departamento de TI, que são arranjadas como um anfiteatro, olhando para os seis telões que ficam no final da sala. Eu me sento bem na última fila, no "degrau" mais baixo, com visão privilegiada dos telões, que não passam de seis televisões de 32 polegadas com um monte de informação que, sinceramente, até hoje eu não entendo muito bem. Você vê, sou um pobre escritor, amante das ciências humanas, largado em um mundo exato, lógico, o mundo da informação.
Mas voltemos à referida tia da limpeza, como todo mundo chama por aí mas não gosta de assumir. Ela deve ter seus trinta anos de idade, acima do peso e negra. Acho interessante a forma como ela executa o seu trabalho, como todo funcionário tercerizado, com a cabeça abaixada e sem falar muito. Eu mesmo já fui um terceiro, então sei como funciona o esquema. Se você não é conhecido do pessoal da empresa pra quem presta os serviços, não fale muito e não fique de gracinha. Sempre foi assim e sempre será. Muitas vezes eu, que trabalhava com suporte de audio e vídeo, tinha que aguentar nariz empinado e desprezo de gente que ganhava menos do que eu! Era fantástico. A mulher em questão veio limpar a minha mesa, e eu, com a minha educação e cara de pau mais de oito mil, disse um "BOM DIA, MINHA AMIGA!" e ofereci um guaraná que estávamos dividindo no turno. Ela me deu o bom dia e recusou o guaraná, já que meio que é obrigação do terceiro não aceitar (eu aceitava e as vezes ainda afanava um pão de queijo). Pois bem, depois disso, voltei ao meu trabalho e ela voltou ao dela.
Uns vinte minutos mais tarde, resolvi dar uma volta pelo estacionamento pra dar uma clareada nas ideias, estava escrevendo um conto e gosto de caminhar nos intervalos de escrita, faço minha auto crítica mental e adiciono mais conceitos à obra. Enquanto caminhava, a mulher da limpeza apareceu, e como quem não quer nada, naquela simplicidade sublime que só os trabalhadores sabem ter um com o outro, começou a conversar comigo. O que eu achei singular, no entando, foi a forma que ela me abordou. Você vê, eu sou muito atento a detalhes, sou bastante observador, e como uma pessoa inicia uma conversa comigo me diz muito sobre as suas intenções. Por exemplo, quando alguém quer conhecer outra pessoa, nem que seja por necessidade, como falar com um novato no trabalho, elas geralmente puxam um assunto que vá gerar uma conversa relativamente longa, dando margem para outras conversas no caminho. O aspirante a sua afeição te perguntará sobre suas preferências, se gosta de jogos, de esportes, de literatura e coisas do tipo. Esse é o gancho. Quando você fala que, por exemplo, gosta de literatura, um leque bem maior se abre diante de quem está te perguntando. Você, como um jovem educado, dirá que sim, que gosta de literatura, e acha interessante a maneira de viajar com a imaginação, blablabla, coisa e tal e etcs. O interlocutor irá concordar, fazer as suas observações e a conversa está oficialmente engatada. Quando o assunto literatura em si se esgota, ele pode usar o leque de oportunidades. Pode perguntar o tipo de livro que lê, pode perguntar autor preferido, obra preferida e tudo mais. Depois disso pode falar sobre seus próprios. E assim uma conversa relativamente longa e uma ligeira afinidade está plantada com sucesso. O jeito que a mulher começou a sua conversa comigo me disse basicamente uma coisa: Ela sentia a necessidade de se socializar, e eu, como me mostrei simpático e com um bom sorrizão estampado no rosto, era o alvo perfeito.
Deixo de delongas e digo logo o que ela falou. Simplesmente deixou cair o balde, olhou pra mim e disse que não estava bem. eu, prontamente, perguntei a razão. E aí, quando ela começou a dizer o motivo, percebi que a conversa já estava bem engatilhada. Ela gostava de falar, e eu não deixo barato, não dispenso uma boa conversa, com quem quer que seja. Ela me disse que estava com medo da madrugada, pois estava frio e as lâmpadas do estacionamento tem o péssimo hábito de desligarem sozinhas durante a noite. Ela disse que assistiu com seu irmão o filme "Atividade Paranormal", e que por isso estava com medo. Eu confesso pra você que quando assisti esse filme mal consegui ficar acordado no cinema, e quando vi as suas sequências não consegui de jeito nenhum e dormi no sofá com a minha namorada. Nem ela, que gostava da série, conseguiu afastar Morfeu ao assistir o terceiro filme. Claro que não falei nada disso para a coitada, que estava aterrorizada, apenas assenti e disse que o filme realmente era amedrontador. Também estrategicamente ocultei o fato de escrever contos de horror, já que achei que isso seria muito pra uma mente com medo do escuro numa madrugada fria numa empresa no meio do nada.
Nós conversamos por cerca de dez minutos, e ela me contou que tinha medo de passar por algumas partes da empresa, que é enorme, como o "bosque" (uma área com um pouco de mato e algumas árvores) e a capela. Nesse ponto eu tenho que concordar com ela, a capela realmente é assustadora com vontade. Ela é um círculo de pedra coberto, pela sua natureza de capela ecumênica, com alguns bancos também de pedra e um púlpito igualmente de pedra. É uma coisa medonha, com todo respeito aos religiosos. E quando chega a madrugada, a coisa tende a piorar. A empresa onde trabalho é a última construção de uma das avenidas principais da cidade. O seu número tem quatro dígitos, beirando os cinco, e fica bem no meio do NADA, cercado de NADA por todos os lados. Quando cai a madrugada, a névoa sobe, vindo das nascentes, dos riachos e dos córregos do NADA ao redor, e a pobre capelinha que já era assustadora fica com uma aparência digna de Lovecraft. Ainda escreverei, com uma dedicatória à minha amiga da limpeza, um conto sobre alguma coisa que se esconde na igreja.
Depois de terminada a conversa, cada um seguiu seu rumo, e eu fiquei matutando sobre a necessidade tão grande que as pessoas tem de se socializar, e o prazer que sentimos com isso. É bom dividir sua vida com alguém. É bom dizer que está se sentindo mal, assim como é bom dizer que se sente bem. Eu penso que a socialização é uma forma de auto-afirmação. Dentre todos os seus usos, é o que mais se destaca. Não quero dizer que conversar serve para massagear o ego, longe de mim. Auto-afirmação não é somente no sentido que estamos acostumados a ver, com a frase já clichê repetida em qualquer discussão e que tem um sentido geralmente pejorativo: "Pessoas com necessidade de auto-afirmação...". Não, não é nesse sentido que digo. É através da socialização que nós dividimos as nossas experiências de vida, que contamos como demos a volta por cima, como fizemos um monte de cagadas pela vida afora e etcs, e é como nós vemos as mesmas coisas com outras pessoas. É aí onde entra a auto afirmação. Nós nos sentimos sim realizados com contar o que passamos pra outras pessoas, é a nossa forma de sentir orgulho de nós mesmos, já que não é sempre que a gente vai ter a mamãe contando pra vizinha que nós tiramos DEZ em matemática. Nós precisamos disso. Nós precisamos de admiração, e admiração dos outros ajuda no processo de criação da sua auto-estima, coisa que muita gente não gosta de admitir. É verdade, caras. É só olhar exemplos de garotas em Facebooks da vida dizendo "AI MEU DEUS, COMO SOU FEIA" só pra esperar um pobre ser do sexo masculino pra dar aquela polida no ego da senhorita. Esse sim é o uso pejorativo da auto-afirmação, mas quando contamos de como sofremos, de como lutamos e de como vencemos, a auto afirmação não é nem de longe prejudicial, ela é, no mínimo, mais que recomendada.
realmente. Eu por exemplo, não costumo me socializar, mas tenho consciencia de muitas habilidades sociais. E interajo com umas pessoas vez ou outra pra me manter em pe de igualdade com os d+ do grupo. Se junta pra sair bem na foto.
ResponderExcluirEu mesmo tenho um pavor terrível de me socializar. Não gosto, mas mesmo assim tento. No fim das contas o resultado é muito melhor do que eu esperava, e eu saio da conversa com aquele sentimento de "a gente tem que fazer isso mais vezes, cara."
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