Uma crônicazinha no embalo dessas coisas de se conhecer e tudo mais. Vale a pena a leitura. É sobre um grande amigo meu, que quem me conhece de verdade sabe quem é assim que repara no seu nome.
Tenho um amigo, o Boca de Ferro, ou só Boca pros mais íntimos, que é como eu. Ele se diz escritor, como eu, digo. São raras as vezes que nos encontramos, mesmo que sempre estou em contato com ele, sendo por telefonemas ou por trocas de contos e crônicas online mesmo. Modernidade, modernidade... somos grandes amigos, mesmo que as vezes nós tenhamos nossos desentendimentos, e até isso eu acredito que aconteça porque ele vê muito dele mesmo em mim assim como eu vejo muito de mim nele.
Temos um projeto parado há anos, e isso nos dá bastante assunto nas nossas conversas pela internet. Um livro de fantasia, eu digo, "Um épico!" ele diz. Mas ambos concordamos em uma coisa: Nenhum de nós tem a força de vontade para escrevê-lo. Então nos mantemos nas brevidades. Eu, cronista, gosto de falar de gente como eu, comum. Vejo a beleza nos dias simples e calmos, enquanto ele, como escritor de contos, prefere a fantasia e o horror.
Aqui relato o nosso último encontro ao vivo.
É o que eu sempre digo, se a vida fosse te dar só alegrias, ela se chamaria mamãe, e não vida. Sabe, as vezes eu me desligo de tudo e todos, entende? Só me desligo e vou vivendo. Está tudo dando errado, então a minha saída pra isso, a minha resposta pra isso, é fazer tudo o que eu gosto e me desligar das desgraças. Estou errado? Quem pode dizer? Sempre tem um lado bom em todas as coisas ruins, veja bem: Se a sua vida está uma merda, ora, pelo menos agora você não vai mais precisar se preocupar em fazer tudo certinho pra sua vida não virar uma merda. A única coisa positiva na merda, e talvez a coisa mais sublime que a merda pode te trazer, é a sensação de liberdade. Você vê, eu trabalhava duro pro monstro da Vida de Merda não me pegar, eu estudava, eu tratava todos muito bem, eu me importava com tudo, tudo isso pra não virar o famoso bostão, mas olha só! A merda me pegou, mesmo fazendo tudo o que era preciso pra manter ela lá no litoral, curtindo a brisa, a mulherada e o que mais a merda pode gostar.
Quando tudo entra no reino da infeliz, eu simplesmente me desligo, como eu disse. Deixo tudo rolar, e tudo vai indo e se encaixando, e eu estou na margem, só observando tudo, sem fazer nada além do que eu gosto. Quando estou nesse estado desligado, ou seja, quando a merda me pega, tudo parece muito mais fácil, e ninguém está lá com o dedo engatilhado pra me julgar. Eu só sou eu, e tudo o mais não importa. É aí que a gente tem aquele momento de identidade, você me entende? É aí que você descobre no que você é bom e no que você é ruim, e consegue descobrir quem você realmente é. Você olha, muitas vezes, pra muita gente, pela primeira vez pros seus defeitos, pros seus pecados, e você percebe que é um cafajeste, ou que não presta pra algo e tudo mais. Muita gente se desespera com isso, fica meio abobada, porque é aí, quando a merda vem, que eles se dão conta de que a vida inteira deles era uma grande mentira. Mentiram pra eles quando disseram que eles eram bons em alguma coisa. Eles mesmos mentiram pra si quando acreditaram piamente que realmente eram bons, quando na verdade não eram nem de longe, talvez nem mesmo aptos. E aí, quando a merda vem, é que eles percebem que, poxa, eles não precisam ser bons nisso, entendem? Caramba, é muita tolice...
Pausa para o meu amigo tomar um gole de coca. Estamos no meio de uma praça bem movimentada, muita gente caminhando pra cima e pra baixo, cada um com seus negócios, sem imaginar por um instante que dois caras, aqueles dois sentados num banco, estão alegremente filosofando sobre as suas vidas, e olha só, sem nem pedir licença!
Disparate. Voltemos.
E vem tudo como uma porrada, não? O pobre sujeito está tranquilo com a sua confidência, e assim, de repente, como só a merda consegue, ela aparece. É tudo de uma vez. Imagina, você tranquilo, de repente aparece um cidadão e te diz que você é terrível em tudo que você faz, que é um péssimo funcionário, que sua família te odeia e etc etc etc. É destruidor, velho. Ou você se mata ou aceita tudo e passa o mês meditando sobre isso. É como diz aquele poeta, não? Ah Maria, não sei, se me mato ou lhe rasgo a fotografia. É bem por aí mesmo.
Pergunto pra ele quando foi que chegou a esse ponto, porque pra mim, claramente, e até pra você que está lendo, o pobre sujeito era ele.
Não, não importa. Além do mais, eu já disse o que foi que aconteceu, de certa forma. Vê, eu não sou um cara que gosta de falar sobre a sua própria merda, tá certo? Fazer, o que, sou eu. Mas uma coisa eu sempre gosto de me lembrar, e tenho um certo orgulho de dizer. Eu estava no hospital, meio quebrado, o médico me dizia que eu estava com pneumonia. Estava bem ruim, mal respirava, e não tinha espaço no hospital maior pra me mandarem, então acabei passando dois dias nessa unidade de saúde, esperando a transferência e recebendo minhas doses de remédio, comida e desdém. Eu lá, tranquilo, e o Herbert na recepção, porque não aceitavam visitas. Me peguei olhando pras pessoas ao meu redor. Tinha um velhinho com alguma doença que não me lembro, e a sua filha, que já estava mais velha que a minha própria avó, estava junto com ele. Eu nunca adivinharia a idade do senhor, só chutei que seria na casa dos setenta, porque ele estava bem conservado, e só me reservei a olhar para ele de vez em quando e dar aquele sorriso de irmão de doença. Eu estava nesse período de meditação, imaginando porque diabos estava tudo dando errado e como consertar, aquelas coisas clichês que é costume aparecer na cabeça quando vem a merda, sabe, e foi olhando ali pro velho que eu percebi o que seria a chave dos problemas. Talvez o maior deles. Eu era arrogante, presunçoso e o pior: Tais sentimentos me dominavam. Ora, eu não conversava com ninguém ali, e indo mais a fundo, na raiz da coisa, percebi que eu me achava melhor do que eles por escrever coisas. Deus, porque eu seria? Porque era arrogante. E essa arrogância me fazia me chamar escritor, mesmo que eram poucos os contos que fazia na época. Eu era PIOR que todos ali na sala, pois era jovem e arrogante, enquanto eles, velhos e sábios, manitnham a humildade.
Eu confesso que as palavras do Boca estavam me tocando. Ele falava dos seus defeitos de uma forma tão simples que me contagiava. Eu via a sua evolução, eu via como ele melhorara desde a útlima vez que nos vimos, a uns bons meses atrás. Quando nos falávamos pela internet ou telefone, era tudo estritamente profissional. Nós estávamos trabalhando no ofício da escrita, e nas nossas conversações, que embora fossem frequentes, não tinham espaço pra esse tipo de profundidade.
E olha só. Eu nunca gostei de rótulos, nunca gostei que me rotulassem, me chamassem de isso ou aquilo, de nerd no meio dos não nerds e de não nerd no meio dos nerds, como sempre era. Eu não gostava que me chamassem de qualquer coisa que não fosse Boca, mas estava me rotulando. Ora, rotular algo não é dizer o que esse algo é? E eu me sentia nervoso não era justamente por não ser o que me chamavam? Ora, fazia isso comigo mesmo. Eu me rotulava de conhecedor das pessoas, eu me rotulava observador, escritor, poeta e tudo o mais. Mas veja, quando eu entrei naquele hospital, percebi que não conhecia nem um milésimo da natureza humana, e por isso, não podia também ser observador, pois as nuances do comportamento humano me passaram despercebidas por anos. E há quanto tempo a vida já não mostrava mais motivos pra cantar ou compor hinos, versos e poemas? E como havia eu de me chamar de poeta, se já não via mais motivos pra fazer a minha poesia? Pois estava errado, e como estava, meu velho... Agora hoje? Evito pensar no assunto. O ser humano adora pensar, adora se dizer e se fazer, mas na hora de dizer e de fazer, foge. Quero ir ao caminho contrário, quero fazer e dizer, e só quero pensar depois de tudo estar dito e feito. Porque assim, meu camarada, as coisas tomam rumo, quando as fazemos, forma, quando as dizemos, e a mais sublime beleza, quando as contemplamos.
E assim, sem mais, se levantou e saiu.
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