Um conto sobre espelhos, um cara com um nome incomum, crimes a serem punidos e uma Fronteira a ser guardada a todo custo. Já imaginou alguma vez que seu reflexo no espelho era algo mais?
Talvez era mesmo, só você não percebia.
Lugar engraçado pra morrer. Não
engraçado como num show, como num circo, mas uma graça fina, irônica. Quando
Josué Silveira parou pra pensar em como era ridículo ser assassinado em um
banheiro masculino nojento em um shopping abandonado, teve que dar uma risada.
Tanta gente morria com mais glória fazendo coisas tão fúteis nesse mundo, e
ele, o pobre Josué, que lutava pela sua vida, morria num banheiro. Se seu rosto
não estivesse tão inchado e desfigurado, Josué provavelmente gargalharia na
cara do homem que segurava a faca no seu pescoço. Era tudo tão sem sentido, sem
honra, sem... sem nada! Seu sangue derramado lutando contra uma entidade tão
violenta cobria um chão de ladrilhos imundos sem ninguém ver. Sua cabeça estava
ferida por golpes de um pedaço quebrado de uma privada que algum adolescente
drogado achou que seria uma boa ideia explodir. Seu nariz quebrado e seus
lábios cortados por conta de repetidos golpes contra uma pia gasta que fedia a
esgoto. Cristo, então é pra ser assim? Travar uma batalha mais árdua e dura que
a maioria dos homens, e mesmo assim morrer com a garganta cortada no meio do
nada, pra ser chamado de neguinho com a cabeça cheia de crack por algum
policial estúpido? Ora, se existisse alguma justiça divina nesse mundo, essa
era uma boa hora pra ela se manifestar.
Josué imaginava o legado que iria deixar. Era um
cidadão comum, pacato, morando na cidade grande, sozinho e sem família alguma
no mundo pra velar por ele. Não tinha filhos pra se lembrar dos seus
ensinamentos, não tinha amigos que iriam estragar uma festa falando dele, não
tinha nem uma mulher que sentiria a falta do seu calor em alguma noite fria na
cama. O único legado que deixaria era pra algum pedreiro ou vigia numa ronda de
segunda feira, fumando um cigarro e procurando algum lugar bacana pra tirar um
cochilo. A única lembrança que deixaria era pra esse vigia, que iria tirar o
boné, soltar um palavrão e amaldiçoar Deus por ter que chamar a polícia e não
poder dormir naquela madrugada. Josué já
conseguia ouvir os pensamentos do coitado, “Tudo culpa desse drogado de
merda!”, e já conseguia ler o BO que iriam arquivar depois de constatado que
ninguém iria reclamar o corpo. “Homem encontrado com graves ferimentos
resultantes de um espancamento em local conhecido por ser frequentado por
usuários de crack. Provável briga por droga, ferimento fatal sendo a garganta
cortada. Família não encontrada, encaminhar para a faculdade de medicina o
quanto antes” e só. Ninguém saberia o que há atrás do espelho, ninguém
saberia que não houvera nenhuma briga por causa de pedra, ninguém jamais
saberia do Homem, da Legião, de todos os olhos que estavam naquele momento
observando milhões de pessoas se barbeando, milhões de mulheres ajeitando o
vestido em um bar e os milhares de políticos discursando pra si mesmos. E
enfim, ninguém saberia do pobre Josué, o fracassado, o campeão tombado, que um
dia olhou no espelho e viu o mal
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