sábado, 16 de junho de 2012

Madame Eva

Conto sobre luzes se apagando, um acidente de ônibus e um camarada bem sortudo. Seria mesmo sorte que fez Jaime Santiago escapar dos destroços daquele ônibus?
E qual era a razão do manuscrito com tantas coisas insanas? Como Jaime sabia daquilo tudo?

Confira.



Quando ela vem, as luzes se apagam. As luzes dos postes se desfocam, piscam algumas vezes, e se apagam, e quando alguém olha, sem perceber o que está acontecendo de verdade, ela já está lá, olhando pra você. E você não sabe o que ela quer, mas pelo olhar, ela sabe exatamente o que veio fazer ali. E assim começam todas as luzes ao redor a bruxelar também, como se concordando com os postes, e os outros postes também entram na farra, e logo até mesmo a própria lua está sendo coberta com nuvens. Tudo isso por um único motivo: Quando ela vem, as luzes se apagam.
Seu nome é Madame Eva. Pelo menos é o nome que a chamam por aí, pelos grupos de estudo sobre assuntos paranormais, por pensadores livres, por esotéricas, hippies e toda gente estranha do mundo afora. Seu poder todos desconhecem. Sabem por que vem, e sabem o que acontece quando vem, além das luzes se apagarem. Sabem da sua predileção, que é tão forte, tão compulsiva, que poderia ser chamada de fome. Madame Eva não é o tipo de mulher que fala muito, mas mesmo assim seus motivos são bem óbvios para quem sabe como olhar. Está estampado na sua cara, mas infelizmente, na maioria das vezes que nos visita, naquelas vezes em que as luzes se apagam de repente, as pessoas que a veem não são versadas nas artes ocultas, nos poderes da terra e no que há além. Por isso não entendem o que se passa, e conversam com Madame Eva como conversariam com um ser humano comum. Não que exista algum problema nisso, Madame Eva sempre foi simpática com qualquer um, e talvez é por isso que sempre procura os mais simples de mente, os não versados, os que não sabem pra onde olhar.
Madame não tem nenhum outro pré-requisito para aparecer além do citado acima. Não escolhe gênero, não escolhe classe social, não escolhe idade. Pode aparecer para um mendigo tanto quanto pode aparecer para um homem podre de rico na sua cobertura. Madame só está lá quando quer, e quando sabe o que está por vir. Ela tem fome, fome por sentimentos, coisa intrínseca da sua raça. Sobrevive através de pensamentos, e para os que conseguem ver, isso estava estampado na sua cara. Madame é o que chamam por aí de cavadores. Ela era uma cavadora. Para se sustentar, todos da sua raça precisam de sentimentos, precisam de lembrança, se alimentam disso. Então Madame sai por aí, em um momento específico, e provoca sensações diferentes nas pessoas. Normalmente fala sobre as suas vidas, sobre o que querem ser, o que foram e o que seriam se tivessem feito algumas coisas em específico. E então, quando a pessoa está no meio da conversa, quando derrama lágrimas, quando ri ou até quando se apaixona pela mulher misteriosa, ela vai embora sem aviso. Uma lâmpada pisca e acende novamente, e quando olham, Madame Eva já não está mais lá. Assim, sem aviso. Por isso a chamam de cavadora, porque é exatamente isso que ela faz. Quando termina, tudo o que resta da pobre vítima é uma saudade enorme, como um buraco no coração. Alguns choram, outros sorriem, outros fecham a cara, mas no fim todos sofrem o mesmo destino.
Você vê, existem algumas regras ancestrais para os da raça de Eva. Não é qualquer um que pode ser “cavado” e roubado de suas emoções por ela nem por qualquer outro da sua estirpe. Há um regulamento bem rígido com relação a isso, e por isso os da sua espécie são vistos como mau agouro e com desespero pelos que os conhecem. Madame Eva tem a particularidade e o tato de não revelar nada a suas vítimas, mas todas terminam da mesma forma. Um dia após o contato, morrem em algum acidente ou catástrofe.




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